


Professor José Moreira de Souza - Graduado pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, especialização pelo Instituto Cultural Newton Paiva Ferreira e mestrado em Sociologia pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas
Neste momento, sinto-me em meio a lendas que, em minha interpretação celebram resultados perversos da divisão dos saberes credenciados.
Neste momento, escolhi três contos populares para nossa conversa deste dia.
O primeiro deles, me encantou na adolescência. Os cegos e o elefante. Conto de Malba Tahan – Júlio Cesar de Melo e Souza -.
Vamos ao conto. Há um “dono” de um elefante. Em suas andanças ele e seu elefante se deparam com seis cegos que desejam conhecer esse paquiderme. Aproximam-se.
Malba Tahan encerra o conto com o mote: “Somos, sem que possamos perceber, iludidos pela aparência enganosa das coisas”. A glosa é a seguinte: Seis cegos se põem a conhecer um elefante pelo tacto. Cada uma toca numa parte, o primeiro conhece pelas ilhargas e conclui ser um muro; o segundo apalpa as presas e encontra cones lisos; o terceiro desliza as mãos pela tromba e “vê” uma cobra; o quarto encontra nas pernas a “imagem” de um coqueiro; o quinto foi às orelhas e determinou ser uma ventarola; finalmente, o sexto apalpou o rabo e disse peremptório: elefante é apenas um pedaço de corda! E o elefante prosseguiu seu percurso, enquanto os cegos continuaram a disputar.
Quando li e me deliciei com este conto, detive-me nos cegos. Passados tanto anos, espanta-me o saber do condutor do elefante e seu saber absoluto, tão parcial quando o dos cegos.
Essa parcialidade do conhecimento “competente” é também celebrada no conto A Carta Roubada de Edgar Allan Poe. Edgar Poe, depois Allan e muitos outro Edgar.
Penso que esse autor órfão de pai e mãe em plena infância, adotado com direito de abandonar a família que o adotou, mas de incorporar o próprio nome o dessa família, Edgar teve tudo para ver a vida em Babel.
Destaco em primeiro lugar essa celebração do mundo engraçado no poema O Corvo. Este poema encantou Fernando Pessoa, poeta de muitos pseudônimos. Segundo a poetiza Henriqueta Lisboa encantou também o poeta José Severiano que visualizou este “Corvo” no poema “Ephialta” - nossos pesadelos.
Reproduzo apenas os dois primeiros versos do Ephialta:
“Na minha infância dolorosamente,
Um senho perseguiu-me algo incoerente”
E de Edgar na versão de Fernando Pessoa:
Disse o Corvo
Only this and nothing more!
É só isto e nada mais.
Porém, a carta roubada celebra a graça deste nosso mundo policial e detetivesco.
Onde posso guardar o segredo da transgressão a ordem racional legal? Resposta desconcertante:
- Segredos se guardam onde tudo está à vista. Ninguém procura segredo onde ele se mostra transparente.
"Mal lancei os olhos sobre a carta, concluí que era aquela que eu procurava. Era, na verdade, sob todos os aspectos, radicalmente diferente da que o delegado nos descrevera de maneira tão minuciosa. Na que ali estava. o selo era negro e a inicial um "D" na carta roubada, o selo era vermelho e tinha as armas ducais da família S...
Fica aqui uma folia cantando e dançando com os cientistas sociais enfileirados. Ouço:
“Somos antropólogos em Marte!!!
Guarde esse canto :
Estou escrevendo com a mão esquerda, embora seja completamente destro.[...] Estou me adaptando, aprendendo ao longo desse tempo – não apenas a escrever, mas a fazer uma dúzia de outras coisas com a mão esquerda; também me tornei muito hábil, capaz de apanhar as coisas com os dedos dos pés para compensar o braço na tipoia.
Peço cuidado, como se deve ter em toda leitura que se possa entender como diálogo. Para mim, o diálogo supera em muito a louvada Tolerância preceituada como recurso de convivência.
No diálogo, há que levar sempre em consideração o saber do outro. Gostei demais na busca para nossa conversa de ler um auto de Gil Vicente, aquele escritor português contemporâneo à chegada dos portugueses à Terra de Santa Cruz que é reconhecida em nossos dias como Brasil.
Vou dar o nome à Comédia da Rubena – título do autor – de Auto do Eco. Defendo minha escolha, porque o tema Eco tem sido importante para meu sonho de conversar com as pessoas. Imagino que a lenda grega que narra o mito de Eco como personagem é substancial para pensar conversas de nossos dias. Eco quer ser parceiro de Narciso. Penso com isto que Eco só sabe repetir o que os outros dizem. O casamento de Eco com Narciso resulta que o eco não é outra coisa que a repetição do si mesmo. Ou seja, eu somente concordo com o outro se ele for igual a mim. Dá-se, porém o caso de que Eco não pode se casar com Narciso porque ele somente sabe repetir as últimas palavras e isto deixa Narciso muito indignado.
Prezado leitor, você já se recorda do meu convite à conversa focada no poema “O Corvo” de Edgar Allan Poe e do Ephialta de José Severiano de Resende? Na minha interpretação o Corvo é o Eco do Poeta.
Tem mais, a noção de Eco comanda longos gêneros do Saber Popular do tipo Mote e Glosa.
Antes de prosseguir, transcrevo duas estrofes do auto/ comédia de Gil Vicente. Trata-se de um possível diálogo entre o personagem de nome Felício e o Eco.
- Felício. Oh! o mais triste, onde vou?
Onde vou, triste de mi?
..........Ó dores, matai-me aqui,
onde nunca homem chegou
Eco: Hou.
Felício – Hou males, quem me vos deu
Deu-vos pera me acabar.
Oh! Quem sofreu, por amar, tamanho mal como o meu?
Eco – Eu.
Quem quiser se deliciar mais siga à obra Antologia do Teatro de Gil Vicente. 3. Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. Seleção, introdução, notas e glossário de Cleonice Berardinelli.