

Professor José Moreira de Souza - Graduado pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, especialização pelo Instituto Cultural Newton Paiva Ferreira e mestrado em Sociologia pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas
No dia 19 de dezembro do ano passado, propus que nossa conversa estivesse atenta à lenda dos “Cegos e o Elefante”. Com efeito, o elefante é muito maior do que nossa condições de conhecer o Todo. Isto me remete à alegoria de nosso poder de visão. Quem vê exibe capacidade maior de imaginar o Todo do que quem não vê.
Qua, qua, qua! Qual é nosso poder de ver?
Em meio a isto me deparo com outro conto popular e uma alegoria. Começo pela alegoria que nos prescreve: a gente só vê se estiver claro. Olhem, nesse meio me encontrei com uma daquelas perguntas, também populares que desafiam nossa compreensão:
- Quem é que tem mais vantagem para nós? O sol ou a lua?
Resposta.
- A lua. Porque o sol ilumina o dia que já está claro e a lua, a noite porque já está escuro.
Bobagem minha. Quero relevar a alegoria. O preceito é o seguinte: Não basta ter olhos. É preciso tê-los como lâmpadas para iluminar nosso campo de visão. Simplificadamente, olhos não nos garantem ver se não formos capazes de utilizá-los como lâmpadas. Mesmo de olhos abertos deixamos de ver o que se encontra à nossa frente – ou seja, em nosso campo de visão. Nem se trata do que estudos eruditos denominam pontos cegos. Um autor famoso chama a isto de uso do Holofote.
Agora, vamos à lenda do bêbado.
Um moço trata de viver a vida plena, sem qualquer restrição. Nesta vida em festa, embriaga-se conforme a regra. Ao voltar para a casa em tropeços resulta de perder a chave. Mesmo totalmente embriagado, se dá conta disso e dana a procurar a chave perdida, e nada. Após tanta frustração, visualiza à frente um poste belamente iluminado. Arrasta-se até ele e dana a procurar a chave perdida.
Nisso aparece um transeunte que, ao ver o cara agachado embaixo do poste, pergunta:
- O que faz aí agachado e com a cara voltada para o chão?
Resposta:
- É que perdi minha chave e estou procurando.
O transeunte:
- Precisa de ajuda? Onde é que você perdeu a chave?
Resposta do bêbado:
- Que bom. Me ajude. Já procurei por todo canto. Comecei ali atrás. Graças a Deus que encontrei este poste. Aqui é mais fácil.
O autor que reconta essa anedota chama a isto de “Busca do Bêbado”.
O outro, mais ilustre ainda nos convoca para atenção ao contraste em conhecimento acumulado, a que dá o nome de Balde Mental, em contrates com o conhecimento iluminado pelo Holofote. Balde nos habilita a nos julgar sábios que têm resposta para tudo. Quanto à busca do bêbado a situação é diferente, ele não tem a resposta e ainda procede a busca inadequadamente.
Aprendi que para toda pergunta cabe uma resposta certa. Coisa assim: Para toda pergunta a reposta já existe. Se não sei a resposta, sou um ignorante desprezível. Quero, então encher meu balde de respostas. Isto pode ser chamado de Hábito da resposta.
Em dado momento me dou conta de que minha ignorância me desperta para perguntas sem reposta. Ui! Minha ignorância se torna ativa. Faz-me acender o holofote e mais, obriga-me a saber onde se situa.
Há um preceito acadêmico que pauta os discursivos que determinam a seguinte estrutura das redações: primeiro a introdução, em seguida o desenvolvimento e por último a conclusão. Jean Piaget sintetiza esta norma com o comentário: Primeiro, dizer o que vai ser dito; em seguida, dizer o que disse que iria dizer e, por último, dizer o que foi dito.
A meninada que é treinada para o ENEM torna isso atividade mecânica e, pode-se imaginar que as redações do ENEM possam ser corrigidas com recursos pós-modernos da tal de Inteligência artificial.
Monografias, dissertações e teses também podem ser produtos dessa assim chamada “inteligência’. Basta entrar com o repertório e pronto. A saída é um belo texto mecanicamente elaborado.
Em dado momento me deparei com um capítulo da obra de Emílio Willems, “O Sobrenatural”. Pois não é que isto tem sido o mote permanente para conversa sobre nosso saber popular em sua relação com a pretensão à compreensão como saber científico? Esse mote pode ser formulado na pergunta: Quão sábios nós somos? Qual o limite de nosso saber? Ou traduzido em fábula: O que sabemos do elefante diante do qual nos encontramos?
Sinteticamente há duas palavras chaves que se impõem. O Real e a Realidade. O Real é o Elefante e a realidade se mostra em nosso poder de aprender o elefante como totalidade. Há consequências na adesão a esses desafios. Cultuar, cultivar e celebrar o mundo em mandamentos. Cultuar o Saber Absoluto, celebrar a descoberta da Verdade Absoluta, algo como estabelecer o dono da Lei.
Pois bem, no referido capítulo de Willems, intrigou-me um comentário inscrito na seção ”Ritos Protetivos”. Gloso: O real é ameaçador. Submeter-se ao Real é aventura carregada de perigos. Como fazer para nos proteger das ameaças do Real?
Ingressamos no reino do “corpo fechado”. Traduzo isto como garantia de vida saudável e não é de graça que a gente habitualmente reponde ao espirro de alguém com a palavra: “Saúde”, simplificada e modernizada ao “Deus te ajude”, “Deus te dê Saúde”. Isto cura gripe!!!
Pois bem, entre centenas de considerações sobre ritos de proteção – guarde-se “rito” é todo comportamento padronizado até aqueles de Tempo e Movimentos de Taylor, ou do Pert e CPM. Vejam o que me diz o sábio Goolgle: “PERT e CPM são técnicas de gestão de projetos que ajudam a calcular o tempo e os custos de uma obra. A principal diferença entre as duas é que a PERT é probabilística, enquanto o CPM é determinista”.
Chego ao que interessa. Emilio Willems registra à página 155.
“Mordedura de cobra e cachorro louco requer benzedura, mas alguns possuem fórmulas para salvar a pessoa mordida. O velho Homero nos disse que recebera uma fórmula que se deve escrever em três papeizinhos. Este, a pessoa mordida pela cobra deve engolir com um pouquinho de água “como se fossem uma cápsula”. As palavras que devem ser escritas no papel são estas:
Sato
Arepo
temite
opera
rotum.
Gostei demais disso. Imagino dois sábios diante deste elefante. O primeiro vai se incomodar com a conversão de uma “cápsula” em papel amassado. O Segundo irá se incomodar com barbarização desse poder simbólico e dirá: isto não serve para nada. Falta à escrita o poder mágico.
A garantia vem do Sinal da Cruz. Onde está o Sinal da Cruz neste anagrama? Este é original descoberto nas ruínas de Pompéia. Veja que a cruz está escondida na palavra TENET que pode ser lida de cima para baixo, de baixo para cima da esquerda para a direita e da direita para a esquerda. O que interessa é o Sinal da Cruz e o resto é para esconder a senha. [Ver: WEITZEL, Antônio Henrique. Magia, religiosidade e superstição na cultura popular. Juiz de Fora: Franco Editora, 2007]

As duas censuras revelam crenças em realidades quase opostas. O sábio moderno não acredita em prática mágica nenhuma. Para curar mordida de cobra somente o soro antiofídico; superstição é charlatanismo. E isto é superstição. Já o segundo censura apenas a ignorância do curandeiro.
Quero finalizar esta minha conversa com homenagem a nosso Ayres da Mata machado filho, fundador da Comissão Mineira de Folclore, a primeira a responder a Renato Almeida como subcomissão estadual de Folclore.
Ora, ao longo de minhas conversas, abusei da alegoria dos Cegos e o Elefante para chamar atenção aos pontos cegos de nossa visão atribuída à cegueira como deficiência.
Ouvi e guardei como lição permanente um preceito maior de nosso Aires.
Certa vez, em reunião da Assembleia Geral de nossa Comissão se discutiu a proposta de um dos membros. Houve discordância.
O quase cego Aires - ele tinha deficiência visual profunda -, aparteou:
Vocês estão discordando sem atenção ao que é proferido. Vocês veem, mas não são capazes de ouvir. A primeira condição para uma conversa ser saudável está no recurso da audição e não na visão.
Proponho a meus leitores capacitados de uso da visão uma longa conversa sobre o primeiro livro publicado por Aires no distante ano de 1931:
Educação dos Cegos no Brasil.
É para ler em voz alta para toda uma roda de conversa.
Para provar o sabor, transcrevo três parágrafos da conclusão da primeira parte:
Os exemplos que virão abaixo bastam para mostrar quanto pode a educação especializada. Nenhum caso impressiona tanto como o de Helena Keler, de Boston, educada pela admirável miss Sulivan. Aos 18 meses ficou cega e surda, antes de saber falar. Vinte dias depois do início dos estudos, miss Sulivan, fazendo-lhe um sinal nas mãos quando ela tateava alguma cousa, deu-lhe a entender que as ideias são susceptíveis de representar-se por sinais. Colocando os dedos nos lábios do interlocutor ela lia facilmente as palavras emitidas. Com um mês e meio de estudo, aprendeu o Braille. Imitando os movimentos faríngeos da língua e dos lábios de miss Sulivan, aprendeu a falar e apropriando-se dessas vibrações, “ouve” tudo que se lhe diz. (Permita-se-me o verbo). Conhece não só o francês, o inglês e o alemão, mas também o latim e o grego, necessários ao curso universitário que fez brilhantemente. Hoje em dia, é um dos vultos eminentes da humanidade culta, autora de várias obras muito traduzidas. Vive feliz, entre os livros, dedicando-se ao estudo.
Não resisto à tentação de citar uma frase sua, em que transparece o encantamento de uma felicidade suprema: “Sinto-me tão feliz que quereria viver eternamente; é que há tanta cousa bela que aprender.”
Laura Brigdman, cega, surda, muda, sem olfato nem paladar, conseguiu, todavia só por meio do tato, possuir alguma instrução, que poderia ter sido ampliada.
Se a educação especializada consegue tudo isso de indivíduos tão mutilados fisicamente, que não poderá ela fazer dos que têm a vista, somente a vista, prejudicada? Deles fará homens que, ao invés de peso morto, de toma-lugares, de parasitas, poderão colaborar para o progresso. Convenho que o mundo marchará sem o concurso do cego. Mas, si ele pode marchar com o mundo, por que deixá-lo atrás?
Este alerta de nosso Aires, convoca-nos à conversa que supera a confusão da Babel. Relatar o que sabemos pelo tato, pelo olfato, visão, pelo paladar e pela visão. Eis desafios à linguagem para diálogos possíveis.
Há conversas que exigem apenas respostas pelo Eco. Sim Senhor! Encontramo-nos no reino da propaganda e do marketing, o que pedem um sim sempre como outro eu. Somos Narciso. Somente há concordância sem outro. Há, finalmente, conversa em que o outro se mostra presente diante da Babel.,
. A única coisa que os parceiros de uma discussão têm de partilhar são o desejo de conhecer, e a disponibilidade para aprender com o companheiro, criticando severamente as suas opiniões – na versão mais forte possível que se puder dar dessas opiniões – e ouvindo o que ele tem para dizer como resposta. [ Popper, Karl R. O realismo e o objetivo da ciência, Lisboa: Dom Quixote, 1987. P. 40]
Em minha compreensão, a base de todo diálogo é o reconhecimento da ignorância pessoal baseada em certezas.
Esses textos fazem parte da REVISTA da Comissão Mineira de Folclore - Edição especial - 77 anos da Comissão. Lançamento previsto para Fevereiro deste ano (2025).